domingo, 25 de setembro de 2011

Tabacaria - Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
[...]

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
[...]
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

[...]

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[...]

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

[...]

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Pequenas adultas

Por Lorrayne França

Maquiagem, chapinha e salto alto são artifícios que fazem parte da rotina não apenas de mulheres adultas. Meninas cada vez mais novas, na faixa dos seis anos, têm usado tais produtos, até sutiãs com bojo fazem parte da brincadeira. A vontade das pequenas de usar os acessórios da mãe não é novidade. O fato é que nos últimos anos o mercado encontrou nessas meninas um público-alvo.

A criança não precisa mais pegar o batom escondido, ela tem batom, lápis, rímel e blush da sua personagem preferida no seu próprio estojo de maquiagem. O salto também pode ser encontrado em diversas alturas e a chapinha nas mais variadas cores. Até sutiã com enchimento para crianças pode ser encontrado nas lojas. Os artifícios usados por mulheres adultas agora servem para maquiar a inocência das crianças.

Contudo, por mais vontade que tenham de ser iguais as suas mães, meninas de seis anos não possuem autonomia para comprar e usar tais produtos se não forem autorizadas por seus responsáveis. As mães se rendem aos pedidos das pequenas, que são diariamente bombardeadas por propagandas dos mais diversos produtos.

Certamente, as mães não querem causar mal às suas filhas. Na maior parte das vezes, elas enxergam tudo como uma grande brincadeira e acham ‘fofo’ ver suas menininhas arrumadinhas como bonecas. Mas além da ‘adultização’ da infância, a brincadeira de hoje pode causar danos a saúde. A pele sensível da criança pode sofrer com as alergias aos produtos de beleza, o salto pode prejudicar a coluna que ainda está em desenvolvimento.

Ao permitir que uma criança use tais produtos, além de pular uma fase, a infância, embutido nas pequenas atitudes e preocupações de uma adulta, também são introduzidos valores deturpados, como o culto exagerado a beleza. Afinal, maquiagem nada mais é do que uma maneira de esconder uma mancha na pele ou uma noite mal dormida. O salto aumenta a estatura das consideradas baixinhas. Os enchimentos dão volume em partes do corpo, assim como as cintas afinam a silhueta.

Independente da vontade das pequenas, cabe ao adulto distinguir o que é ou não adequado uma criança usar. E além da preocupação com a saúde, também é importante avaliar os valores que estão sendo transmitidos. Alcançar os padrões de beleza definidos pela sociedade não é uma tarefa fácil nem para uma adulta. Como será a autoestima de uma pessoa que desde pequena entende que beleza é fundamental?

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Obstinada enxergo ao longe possibilidades radiantes

Bom, é normal se sentir deprê, desmotivada em algum momento, mas não dá pra deixar a peteca cair.
Essa música, na verdade, essa frase "osbtinada enxergo ao longe possibilidades radiantes" me faz muito bem, me dá força, me faz acreditar que vai dar certo...
Sem contar que a música é bem gostosinha de ouvir e cantar e dançar...


Obstinada
Composição : Paulinho Pauleira

Me livrei do seu enredo
Estou de porta aberta
Meu caminho é longe desse seu desamor

Irrequieta
Cabelo ao vento
Pareço um planador

Vejo léguas à minha frente
Fui pro andar de cima
Desatarraxei você das bordas de mim

Absoluta
Milhas adiante
Muito bem melhor assim

Por isso eu nunca pararia
Na parada em que você estaria
Sabe lá no que vai dar
Não me arriscaria
No meu rim, no cotovelo
Na raiz de um fio de cabelo
Que resido do indivíduo
Me desarvoraria
Estou assim
Por isso vim
Contar minha historinha
Livre enfim
Você pra mim, não

Desafio, desvario
Rio de Janeiro
Abre as asas quentes sobre o meu nascer do sol

Espevitada
Examino as frentes
Batuque, praia e rock 'n' rool

Recomeço no tropeço
No sobressalto
Nem eu mesma aturo esse meu estado borbulhante

Obstinada
Enxergo ao longe
Possibilidades radiantes

Por isso eu nunca pararia
Na parada em que você estaria
Sabe lá no que vai dar
Não me arriscaria
No meu rim, no cotovelo
Na raiz de um fio de cabelo
Que resido do indivíduo
Me desarvoraria
Estou assim
Por isso vim
Contar minha historinha
Livre enfim
Você pra mim, não

Desabafo II

Por que será que é tão difícil aceitar as pedras no caminho mesmo tendo consciência que elas na verdade são fundamentais para o nosso crescimento e amadurecimento?

Confio muito, e já tive diversas provas, que mesmo quando as coisas dão errado, no futuro, percebemos que na verdade estava tudo certo. Só estava sendo escrito por linhas tortas...

Tenho metas e estou tentando, com todas as minhas forças, alcança-las. Mas são tantas pedras... mas tantas pedras, que eu tô ficando cansada.

Sou obstinada, a brasileira que não desiste nunca, mas as vezes também tenho dúvidas. Será que estou no caminho certo? De repente as coisas dão errado com o propósito de me fazer desistir mesmo, né? Então, eu busco uma nova alternativa e descubro um novo caminho. Mas como eu posso ter certeza? A única certeza que eu tenho é que ninguém pode me dizer por onde ir... somente eu posso saber que caminho quero seguir e onde quero chegar.

É tão difícil ser responsável pelo próprio destino. Se é que isso existe... ser dona do próprio destino.

Tá bom, né? Desabafei.

Espero que Deus me dê serenidade pra tomar as decisões certas e paciência para aguardar os resultados.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Projeto prevê punições para estudante que desrespeitar professor

Um projeto de Lei que tramita na Câmara dos Deputados prevê punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento nas instituições de ensino. De autoria da deputada Cida Borghetti (PP-PR), a proposta será analisada pelas comissões de Seguridade Social e Família, de Educação e Cultura e de Constituição e Justiça. As informações são da Agência Câmara.

De acordo o projeto de Lei 267/11, em caso de descumprimento das regras escolares, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, será encaminhado à autoridade judiciária competente.

A proposta muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.

Segundo a deputada Cida Borghetti, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Ela diz que, além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, muitas vezes, acabam sem punição.

Fonte: Terra

[É inacreditável que seja necessário criar uma lei para que alunos respeitem professores. A sociedade está a cada dia mais perdida. Os alunos estão rebeldes e desrespeitosos, os pais não tem mais autoridade sobre seus filhos e os professores ficam no meio.
Ao sofrerem as agressões dos alunos, os professores convocam a presença dos pais, que escutam as queixas e prometem tomar providências. No dia seguinte o aluno volta mais revoltado. O professor, cansado de remar contra a maré, vai deixando pra lá... E assim caminha a humanidade...]

Sutiã aos 6 reabre polêmica da "adultização" de crianças

Peças com enchimento que imita o formato dos seios estão à venda em lojas

Mãe que presenteou filha com roupa íntima afirma que apenas atendeu a curiosidade; psicóloga critica prática


Depois das maquiagens e dos sapatos de salto, crianças ainda longe da pré-adolescência, na faixa dos seis anos, agora têm à disposição sutiãs com enchimento.

Lojas de departamentos passaram a vender peças para meninas com bojos que imitam o formato dos seios, conforme revelou a coluna Mônica Bergamo ontem.

Fábricas de Franca, no interior paulista, afirmam que passaram a produzi-los a pedido de mães cujas filhas disseram querer imitá-las.

Uma funcionária das lojas Pernambucanas da rua da Consolação, na região central de São Paulo, afirma vender cerca de 30 sutiãs infantis com enchimento por dia.

Ontem, no entanto, só eram encontradas peças com numeração a partir de 12. Segundo a Pernambucanas, os produtos com numerações menores foram retirados das lojas "por uma demanda do licenciador [a marca]".

Na Pernambucanas do shopping Aricanduva (zona leste de SP), Maria Helena Gomes, 40, e a filha, Ana Paula, 7, examinavam as lingeries. A menina usa o sutiã com bojo desde os seis anos de idade, mas só em casa, para brincar, diz a mãe.

"Como ela é miudinha e magrela, o peito chama muita atenção. Tenho medo de que zombem [fora de casa]."

Adriana Aparecida de Moraes Câmara, 38, deu a primeira peça a sua filha mais nova quando ela tinha cinco anos. Ela diz ter atendido a uma curiosidade da criança.

"Ela usou muito pouco, mais no começo, porque estava empolgada. É mais a curiosidade de ter um igual ao da mãe", afirma Adriana.

A venda dos sutiãs com enchimento para meninas tão novas reabre a discussão sobre a "adultização" precoce.

"Se até para os adultos o padrão estético desejado é inalcançável, imagina para as crianças, que não têm nada a ver com isso", observa a psicóloga da PUC-SP Maria da Graça Gonçalves.

Vestir criança como adultos, afirma a psicóloga, é deslocá-la da fase que ela deveria viver e jogá-la para um universo adulto.

É por esse motivo que a avó Juracilda Isidro, 52, negou o pedido de sua neta de quatro anos por uma peça com enchimento. "Ela disse: "Ah, vovó, eu quero um igual ao seu". Mas acho errado vestir criança como adulto."

Para a terapeuta sexual Fátima Protti, munir criança de sexualidade, através de maquiagem ou roupa de crescida, é lhe dar uma arma carregada que ela não sabe usar. "Passa longe da criança o sentido erótico por trás do que veste ou usa", afirma.

Diretora da Frelith Lingerie, empresa que fabrica peças para crianças, Sueli Maria Pereira Silva, 50, defende o seu produto.

Para ela, as peças são mais "uma brincadeira" do que algo para as meninas usarem no dia a dia.

(JULIANA COISSI, CHICO FELITTI e VANESSA CORREA)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Desabafo

Conviver anos com uma pessoa, passar por momentos bons e ruins... acreditar que essa pessoa te conhece, admira suas qualidades e respeita seus defeitos...
E era tudo ilusão!
A sua sinceridade foi questionada
Simplesmente essa pessoa acredita que você foi capaz de fazer a única coisa que você nunca faria: MENTIR

No final, quem se iludiu fui eu, mas acho que é comum julgar os sentimentos e ações das pessoas que amamos pelos nossos próprios...

Se depois de tudo o que ficou foi isso, então nunca houve nada
"VOU MANDAR PASTAR"
Porque quem me conhece, me compra

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Notas de um ignorante, por Millor Fernandes

Entre as coisas que me surpreendem e humilham figura esta, fundamental, que é a cultura de meus amigos e conhecidos. Não só a cultura no sentido clássico, mas também o conhecimento imediato das coisas e fatos que lhe estão sob os olhos no dia-a-dia da existência. Quem está a meu lado sempre leu mais livros do que eu, conhece mais política do que eu, já esteve em mais países do que eu, já teve mais casos sentimentais do que eu, estudou mais do que eu, praticou e pratica mais esportes. Paro e me pergunto que fiz dos meus anos de vida. Já fui atropelado e sofri alguns acidentes, como explosão, queda e afogamento. Mas entre os acidentados não estou na primeira fila. Tenho vários amigos que já caíram de avião, outros de cavalo, alguns sofreram pavorosos desastres de automóveis, um esteve preso num armário enquanto uma casa (não a dele, é claro!) se incendiava, outro ajudou a salvar o navio Madalena em meio a tremendas ondas que ameaçavam arrebentar sua lancha a todo momento. Que fiz eu de minha vida? Em matéria de cultura encontro imediatamente quinhentas pessoas, só entre as que eu conheço, que sabem mais línguas do que eu, leram mais, falam melhor e mais logicamente, conhecem mais de teatro e citam com precisão escolas filosóficas, afirmando que tal pensamento pertence a esta e contradiz aquela. Que fiz eu? De esportes ignoro tudo, não sei sequer contar os pontos de vôlei, só assisti até hoje a uma partida de pólo, nunca joguei futebol e quando vou ver esses jogos desse esporte, só consigo reconhecer os jogadores mais famosos. Esqueço o nome de todos, e no domingo seguinte já não sei mais o escore da partida a que assisto neste. Nado mal, corro pedras, jamais consegui me levantar num esqui aquático, não guio lancha, joguei golfe uma vez, tênis seis meses, não entendo de velejar (o que já me causou uma grande humilhação diante de esportivíssimas americanas de quinze anos que me conduziram num passeio lá na terra delas), e, em matéria de mares, nunca lhes sei os ventos e fico parvo com o senso de direção de muitos e muitos de meus amigos que jamais supus tomassem nada de brisa e tufões. Guio, mas o motor de meu carro é para mim um mistério indevassável. Sei apenas abrir o capô e contemplar a máquina, atitude metafísica que até hoje não pôs carro algum em marcha.

Seria eu então um homem dedicado á cultura propriamente dita, aos livros, ao estudo, ao amor da leitura e do pensamento? Não, pois meu pensamento é confuso e minha leitura parca. Conheço homens, dos que não vivem de escrever, que pensam muito melhor do que eu e leram muito mais, sem contar os especialistas, que conhecem livro pelo cheiro.

Entre os que viajam também não sou dos que tenham viajado mais. Com o agravante de que nunca sei bem onde estou, não conheço a distância que vai de Roma a Paris, nem sei se Marselha está ao Sul ou ao Norte da Itália. Fico boquiaberto quando vejo amigos meus apontarem estátuas e falarem sobre os personagens que elas representam com uma facilidade com que falariam de si próprios. Mesmo o conhecimento de nomes, pessoas e fatos adquiridos em viagens eu o esqueço em três semanas. Mas não adianta o leitor querer me consolar, dizendo que talvez eu seja um bonvivã, porque nunca o fui dos maiores, tendo minha vida sido conduzida sempre numa certa disciplina, necessária a quem veio de muito longe. Donde o amigo poderá concluir então que eu sou um trabalhador infatigável, um esforçado, um detonado. E isso também não é verdade porque, com raras exceções, nunca trabalhei demasiadamente e cada vez procuro trabalhar menos, numa conquista ao mesmo tempo prática e filosófica. Bebo? Bebo mal e ocasionalmente. Não sei quando a bebida é boa ou falsificada. Não sei o nome dos vinhos mais triviais e sempre me esqueço qual é o restaurante em que eles fazem um prato que certa vez eu adorei. Por mais jantares a que tenha ido e por melhores alguns lugares que tenha freqüentado, devo sempre esperar que alguém se sirva na minha frente para não pegar o talher errado e o copo idem. Além do que não como muito, nem tenho nenhuma particular predileção por comer. Gosto então da vida calma, sou um praticante da meditação e do ioga? Nunca dos que mais o são. Por outro lado a extrema agitação também não me é familiar.

Que fiz da minha vida? Quando há um acidente de rua, vem-me o pavor de tomar partido, pois nunca tenho realmente a convicção do lado certo. Se fala o mais poderoso eu sou inclinado a ficar de seu lado por uma tendência a defender os que hoje são mais comumente acusados de todos os males, vítimas do tempo. Se fala o mais humilde sinto-me inclinado a defendê-lo por um ancestralismo que me faz seu irmão, por idéias arraigadas que fazem com que todo homem queira lutar instintivamente pelo mais fraco. Por quê? Não sei. Sou bom de guardar nomes, caras, datas? Já disse que não. Sempre esqueço o nome dos conhecidos e troco o dos amigos mais íntimos num fenômeno parifásico que só a loucura mesma explicaria ou então a bobeira nata que Deus me deu. E política meu conhecimento chega ao máximo de saber que o Sr. Plínio Salgado pertence ao PRP, o Brigadeiro à UDN e Jango ao PTB e creio que há alguns outros partidos também. Mas mesmo essas convicções não são inabaláveis e, se alguém me pegar desprevenido e fizer dessas letras e nomes outras combinações, lá vou eu a aceitá-las, embrulhado e tonto, até que outro interlocutor crie para mim novas combinações e novas confusões.

Mas peguem um puro e simples crime e eu nunca sei quem matou a empregada e em meu peito jamais se chegou a criar uma suspeita sólida a respeito do poeta de Minas. Isso, aliás é o máximo a que vou – sei que houve um crime em Minas Gerais, alguém matou alguém. O morto não está na lista de minhas lembranças, não sei de quem se trata. Sei que o indiciado assassino é um poeta, vi sua cara barbada e meio calva em muitos jornais e revistas. Mas meus conhecidos sabem de tudo. As mulheres de meus conhecidos então nem se fala. Que fiz eu de minha vida? – me pergunto de novo, honestamente, com a surpresa e a amargura com que o Senhor perguntava: “Caim, que fizeste de teu irmão?” Pois boêmio não sou, embora tenha gasto milhares de noites solto pelas ruas. Mas os boêmios me consideram um arrivista da boemia assim como os homens cultos me consideram um marginal da cultura. E os esportistas a mesma coisa com relação aos parcos esportes que pratico. Todos com carradas de razão.

E nem a maior parte do meu tempo foi gasta em conquistas amorosas, pois nesse terreno o Porfírio Rubirosa, se me conhecesse, me olharia com o mesmo desprezo com que me olham conhecidos galãs nacionais.

Dessa mente confusa, dessa existência confusa, dessas mal-traçadas-linhas de viver creio que só resta mesmo uma conclusão a que durante anos e anos me recusei por orgulho e vergonha – sou, por natureza e formação, um humorista.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

liberdade

Eu amo muito essa música pela letra e acho que ela é muito boa na voz do Marcelo Camelo... mas o Paulinho Moska... não tenho nem palavras... é mais melhor de bom!


Liberdade
Marcelo Camelo

Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não
Eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares
Vou sonhando em outros ares, vou
Fingindo ser o que eu já sou
Fingindo ser o que eu já sou
Mesmo sem me libertar eu vou

É Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro

De que vale ser aqui
De que vale ser aqui
Onde a vida é de sonhar?
Liberdade

Por que o brasileiro lê pouco?

Além de a leitura não vir de casa, a escola mais atrapalha que ajuda
por Raphael Soeiro

Fiquemos com a resposta da maior autoridade no mundo, a Unesco. Para o setor da ONU que cuida de educação e cultura, só há leitura onde: 1) ler é uma tradição nacional, 2) o hábito de ler vem de casa e 3) são formados novos leitores. O problema é antigo: muitos brasileiros foram do analfabetismo à TV sem passar na biblioteca. Para piorar, especialistas culpam a escola pela falta de leitores.

"Os professores costumam indicar livros clássicos do século 19, maravilhosos, mas que não são adequados a um jovem de 15 anos", diz Zoara Failla, do Instituto Pró-Livro. "Apresentado só a obras que considera chatas, ele não busca mais o livro depois que sai do colégio." Muitos educadores defendem que o Brasil poderia adotar o esquema anglo-saxão, em que os clássicos são um pouco mais próximos, dos anos 50 e 60, e há menos livros, que são analisados a fundo. Mas aí teria de mudar o vestibular, é isso já é outra história.

Fonte Instituto Pró-Livro, ANL, Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina, el Caribe, España y Portugal (Cerlalc).

Fonte: Superinteressante

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Enem não cumpre seu objetivo

[Escrevi essa matéria no último ano da faculdade para o Entrevista. Ao reler esse texto, tive vontade de fazer um monte de alterações. Hoje, com certeza, eu escreveria diferente. Mas é bom ver como experiência é tudo... estamos sempre melhorando, né?]

“Avaliar o desempenho do aluno ao término da escolaridade básica” é o principal objetivo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), segundo consta no Documento Básico do projeto. Mas, na prática, a prova não cumpre a meta. A utilização da nota obtida para outras finalidades levou a adoção de estratégias, como cursinhos preparatórios, que interferem nos resultados, não permitindo que haja uma avaliação real da qualidade do ensino público. Porém, mesmo com esses artifícios, em 2008, mais de 80 mil bolsas ficaram ociosas, pois os estudantes não alcançaram a nota mínima exigida.

Realizado desde 1998, o Enem é uma avaliação de caráter voluntário. A Reportagem entrou em contato com o MEC pó e-mail. A coordenadora de atendimento à imprensa, Luciana Yonekawa, respondeu que o “objetivo principal é possibilitar uma referência para auto-avaliarão”. Desta forma, além de não estar de acordo com o Documento Básico, a não obrigatoriedade também é uma falha em relação à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LBD), que determina “que a União organize processo nacional de avaliação do rendimento escolar, para todos os níveis de ensino”.

Em 2004, o MEC criou o Programa Universidade para Todos (Prouni), que oferece bolsas de estudos em universidades particulares, de acordo com a média do Enem e com a renda familiar do candidato. As instituições também são beneficiadas com isenção ou abatimentos em impostos. Desde então, além dos alunos que estão concluindo o Ensino Médio, estudantes egressos também realizam o exame, visando conseguir o benefício. A primeira edição do Enem reuniu cerca de 115,6 mil estudantes. Em 2005, ano seguinte a implantação do Prouni, o exame atraiu 2,2 milhões de participantes. No ano passado, foram mais de 4 milhões de inscritos.

Em 2006, foi criado o Programa Especial de Monitoramento do Aluno de Escola Pública (Premaesp), que é um cursinho preparatório para o Enem. O diretor do Premaesp, Carlos Roberto Corazza Filho, afirma que o projeto foi criado porque as escolas públicas não preparam os alunos para o Enem e o corpo docente também não é qualificado.

“O Premaesp tem como finalidade aumentar as chances dos candidatos a vagas em universidades privadas, por meio do Prouni”, explica Corazza. Em 2008, 80 mil bolsas no ensino superior não foram preenchidas porque as notas obtidas pelos participantes do Enem não alcançaram a nota mínima exigida para concorrer ao benefício.

Estudantes das classes econômicas C e D estão recebendo cartas convidando para participar do Premaesp. “Sempre que vamos abrir vagas em uma cidade, enviamos a carta para os bairros que estão dentro deste perfil. Quando temos um bom número de matrículas, enviamos a correspondência novamente”, esclarece Corazza. Na carta, além do local e horário das inscrições, também há informações sobre o Prouni e o Enem. “Quando explicamos como funciona o Premaesp para os interessados, mesmo que ele não faça o curso, sairá informado sobre o Enem e o Prouni”, afirma o diretor do Premaesp.

No ano passado, a média nacional das escolas públicas na parte objetiva da prova foi de 36,92%, sendo que para concorrer a uma bolsa, os alunos precisam ter no mínimo 45%. No Estado de São Paulo, a média foi de 38,99% e, em Santos, 40,25%. As notas baixas dos alunos de ensino público mostram a ineficiência do ensino no País.

A coordenadora de atendimento à imprensa do MEC, Luciana Yonekawa afirma que “o Enem não mede a capacidade do estudante de assimilar e acumular informações, e sim incentiva a aprender a pensar, a refletir e a ‘saber como fazer’. Valoriza, portanto, a autonomia do jovem na hora de fazer escolhas e tomar decisões”. Com as notas obtidas, é possível perceber que os estudantes não conseguem aprender no ensino público o fundamental exigido para qualquer ser humano na vida adulta.

Em relação ao cursinho preparatório, Luciana explicou que o Enem “não cobra apenas o que o aluno aprende na escola – todo o conhecimento que ele adquire ao longo do Ensino Médio é avaliado. O aluno é avaliado, aliás, não a matéria que é dada a ele. Sendo assim, quaisquer cursos a mais que ele faça – pode ser línguas, reforço em matérias, ou mesmo os profissionalizantes, contam pontos no conhecimento do aluno”. Os estudantes que dependem apenas do ensino básico para concorrer à bolsas de estudos e a vagas no mercado de trabalho não terão chances de competir com outros estudantes.

Outra questão que muda o foco do Enem é a transformação da prova em vestibular. A partir de agora, o teste contará com 200 questões e redação. O aluno terá dois dias para realizar a prova, que será válida por três anos. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista, adorará o procedimento a partir deste ano como único processo seletivo para todos os cursos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nem sempre o amor se encontra tão perto

Sushi
Composição: Luiz Chagas e Tulipa Ruiz

Pensei estar sendo esperta
Ao te dar meu coração
Falhei, deixei porta aberta
Você alegou: “foi rejeição”
É isso que dá contar com o certo
Nem sempre o amor se encontra tão perto

Cheguei a uma ilha deserta
A um atalho contramão
Eu sei que a resposta correta
Pode não ser a solução
Viver a teu lado não dá futuro
Fiquei deslumbrada a princípio, eu juro

Então vem, chega mais perto
Devolve já meu coração
Que tal sair deste aperto
E decretarmos solidão a dois
Querido, é mais fácil vivermos solteiros
Em festas confusões
Querido, é mais lindo juntarmos dinheiro
E embarcarmos pro Japão

Sushi, chá bar
E esse seu jeito de falar
Cantar, dançar, olhar pra mim
Viver é não ter que transplantar…

Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar no cais chorando não sou eu quem vai ficar dizendo adeus batucada macaco no seu galho da roseira em flor da laranjeira amor é choradeira horror a vida inteira à beira da loucura e a dor e a dor e a dor e a dor…



sábado, 22 de janeiro de 2011

A escola mobilizadora, por Eliezer Pacheco*

Tem sido enfatizada a valorização do professor como forma de melhorar a Educação brasileira. Isto é correto. Sem educadores motivados, é impossível uma Educação de qualidade. Também há a necessidade de Escolas bem estruturadas. Entretanto, os principais problemas se originam do lado de fora das instituições educacionais.

A Escola precisa se ocupar das questões sociais que a atingem. Tais problemas não têm sido tratados como questões concernentes à Educação, quando o são. É difícil ocorrer uma aprendizagem adequada com famílias desagregadas, pais com baixa ou nenhuma escolaridade e com a inexistência de ambientes que sejam favoráveis ao estudo.

Os entraves cruciais da Educação têm de ser enfrentados com políticas de emprego, salário, etc. Nosso país vem enfrentando estas questões e adotando importantes iniciativas na área educacional, cujos resultados, a médio e longo prazo, acontecerão. Estes, contudo, demandam uma geração para se fazerem sentir. Devem os educadores e a sociedade aguardar as consequências destas iniciativas? Parece-nos que não.

As Escolas públicas, além da parte pedagógica, deveriam ter uma coordenação de políticas sociais. A comunidade Escolar deve ser vista como um todo. As Escolas devem compreender a Educação dos pais de seus alunos como parte de suas tarefas, encaminhando-os para a alfabetização, Escolarização e profissionalização.

O debate político entre os educadores foi substituído pelo debate sindical, importante para a categoria, mas insuficiente para responder aos desafios da Educação. A Escola é a instituição pública de maior capilaridade em todo o país e, portanto, a que tem melhores condições de articular uma grande mobilização nacional em defesa do conhecimento e da emancipação.

* Professor, secretário de Educação Profissional do MEC

Fonte: Diário Catarinense (SC)

[Em uma conversa no ônibus, uma mãe conta que a filha havia soltado uma bomba na escola. Os pais foram chamados pela direção e, para se vingar, a adolescente de 15 anos rasgou as cortinas da escola. Num outro dia, a menina foi buscar o passe escolar e o diretor disse que só entregaria para o responsável, afinal, ela não assistia às aulas. Ao comparecer mais uma vez na escola, o pai foi comunicado que sua filha tinha mais de 500 faltas e, portanto, já estava retida.

Além disso, a mãe ainda contou situações em que era xingada pela filha, disse que a adolescente não ajudava com as tarefas domésticas, ficava o dia inteiro na rua e que não tinha horário para voltar. Após contar tudo isso ao colega, a mãe se perguntou: "O que eu posso fazer? Vou deixar ela andar pelada na rua? Ela é uma playboyzinha sem ser, porque não tem dinheiro. Todo mundo arrumado, com roupa de marca, e vou deixar ela andar de qualquer jeito?".

Essa história ilustra muito bem como a ausência de estrutura familiar é o principal motivo da falta de interesse dos jovens pelos estudos, sem considerar tantas outras consequências. Pais que trabalham muito para sustentar muitos filhos, pais viciados, pais despreparados, pais que também não foram incentivados... Seja qual for a razão, falta de tempo ou de interesse, os pais não controlam o que seus filhos fazem durante o dia, e nem a noite. Eles não perguntam como foi a aula, o que o filho aprendeu, e, muito menos, se há lição de casa.

Em paralelo, há a culpa, que impede que o pai castigue seu filho mesmo com a certeza de que ele cometeu (ou está cometendo) um erro. Culpa pela falta de tempo, pela fraqueza de preferir as drogas, pela certeza de que poderia estar fazendo mais.

Sem punição, o "não" tão necessário, a criança ou adolescente busca as mais diversas formas de chamar a atenção e garantir, ao menos, alguns gritos por dia.]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fofo ou inapropriado? 'Vogue' francesa publica editorial polêmico com crianças

Meninas de seis anos em atitude de gente grande




Um ensaio recente publicado na “Vogue Paris” tem tudo o que um bom editorial de moda deve ter: meninas, maquiagem carregada, salto alto, joias, poses ousadas e muito, muito carão. Mas, com um olhar mais atento, nota-se algo diferente: as “modelos” das fotos são crianças que, certamente, não passam dos seis anos de idade.

Em atitude de gente grande, as meninas causaram alvoroço entre os sites especializados, que recriminaram a revista por retratar situações inadequadas para a idade das modelos. “Em vez de meninas brincando de se vestir no closet da mãe, essas fotos mostram crianças crescendo rápido demais”, diz o colunista Justin Fenner, do Styleite.com.

O ensaio faz parte da edição especial da “Vogue Paris” editada pelo estilista Tom Ford, repleta de editoriais polêmicos. Um deles, em contraste com as crianças, traz um casal de idosos em cenas quentes. O americano também colocou nas páginas da publicação a modelo Crystal Renn toda enfaixada e deu um beijo no fotógrafo Terry Richardson para um ensaio cheio de sadomasoquismo.

Fonte: GNT

[Inapropriadíssimo, né? Além de desnecessário... Isso é um incentivo a erotização da infância. As consequências são a gravidez precoce, a exploração sexual infantil... Criança tem que ser criança, e se comportar como tal.